A diáspora do eu

Terceiro texto sobre o medo de zumbis. Os textos anteriores podem ser encontrados aqui e aqui.

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O modelo de relacionamento a partir do qual me guiava era o de ceder até me perder, até  ter tanto dos outros em mim, que eu me vestia dos outros e me despia de mim. Desse modo, eu borrava as fronteiras entre o eu e o tu, e não sabia mais quem eu era nem quem tu eras. Depois de um tempo, no vazio do não corpo, eu reclamava algo de meu, eu reclamava quaisquer vestígios de subjetividade que ainda pudessem habitar o amontoado de outros que eu tinha me tornado.

A ideia de uma significação singular reclamava um modo de existir não por eu ter me desterritorializado, mas por eu ter cedido não no que era dispensável para a minha expansão enquanto sujeito, mas especialmente no que, de algum modo, me colocava na posição de sujeito. E, mesmo com todas as cessões, fiquei só. Restaram-me, dos outros, os fragmentos de sujeitos que eles eram quando se relacionavam comigo.

Fragmentos que aceitei incorporar à mim, por, de certo modo, desejar ser outra que não eu. Mas o que veio dos outros nunca se encaixou no vazio do que eu expulsei de mim, no vazio em que antes estiveram todas as minhas vontades. Nesse amontoado de espaço, onde antes havia fronteiras, os zumbis são a corporificação das diferenças irreconciliáveis entre o que eu era e o que eu desejava ser, entre o eu e o tu, entre o desejo consumado e o desejo reprimido.

Os zumbis são uma criação do meu inconsciente que me atacam sempre que estou prestes a superar algo, a ressignificar uma situação, a descobrir os segredos ocultos do medo para desmitificá-lo. Monstros sempre se levantam da mesa quando estão prestes a serem dissecados. Então eles fogem, noite adentro. Para dentro da ferida não curada. Aquela ferida que, por fora, está fechada,  cuja pele já foi renovada, mas lá dentro, há um oco, um buraco em que se escondem sangue pisado e dor.

Quando olho para as feridas expostas dos zumbis, quando olho para as feridas expostas que são os zumbis, eu sinto raiva por eles me fazerem lembrar das feridas que tapei com pele e orgulho, mas que, por dentro, estão mais abertas do que nunca. Às vezes, elas doem tanto que o que eu mais quero é que as pessoas consigam enxergá-las através da minha pele, e corram para me ajudar a curá-las. Mas sei que preciso curá-las sozinha. Preciso me aproximar de cada zumbi, tocá-lo, e pegar um pouco do eu que fui esparramando, feito migalhas, enquanto tentava ser  uma inexistente e perfeita outra.

O silencioso triunfar dos traumas no tempo

Segundo texto sobre o medo de zumbis. O texto anterior pode ser lido aqui.

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Com muita frequência, perco o momento de agir, o que me coloca na posição de ser uma pessoa que reage. E reações, quando não são quimicamente testadas e matematicamente calculadas, costumam ser imprevisíveis e, por vezes, desproporcionais. Não falo, de imediato, que uma atitude me desagradou, a pessoa repete a atitude, e incorpora novas atitudes que me incomodam na maneira de se relacionar comigo.

Então, eu decido reagir, e solto tudo o que vinha remoendo desde a primeira atitude que me desagradou, mas ignoro que o desconforto que tal atitude me provocou não era uma informação que a outra pessoa tinha, o que inviabilizava que ela se desculpasse, porque lhe faltava uma informação essencial, uma informação real. E aquela primeira atitude não existe mais, não como foi concebida, não como aconteceu realmente. Já virou um zumbi, que se alimentou de todas as atitudes subsequentes da pessoa, e de todas as vezes em que, por já estar irritada, eu amplifiquei as falas e os gestos alheios. E então eu me sinto culpada, e caio da escada.

A maioria dos medos é imaginária. Constitui-se de traumas não superados que, inconscientemente, projetamos em objetos, ações, circunstâncias e pessoas. As escadas, das quais me vejo cair com uma constância desesperadora, não têm o poder de me ferir, nem de me derrubar, mas desloquei todo o medo das quedas anteriores para elas. E vejo os meus pés se desequilibrando, e chego a sentir o gosto do sangue na boca, de tão real e próxima que parece a queda. E vejo os zumbis, trôpegos, com o rosto desfigurado, se aproximando. Fecho os olhos, e vejo-os com ainda mais exatidão, com todos os buracos onde deveriam ter carne, e com a pele cinzenta, azulada, em decomposição.

Projeto nos inexistentes zumbis todas as feridas que já tive em muitas das vezes em que caí. E por mais que tente superar esses traumas, não consigo dar um novo significado às coisas, não consigo restabelecer as pazes com as partes avulsas da minha vida, com as lembranças do que deixou de ser e do que ainda está aqui. Em Mal-Estar da Civilização, Freud disse que a escrita foi, em sua origem, a voz de uma pessoa ausente .

Analogamente, o medo de zumbis é a voz de um trauma, uma cicatriz, a marca de algo que, mesmo não existindo, teima em se fazer presente. Preciso encontrar um modo de me inscrever no espaço da ausência. Só assim poderei dar um novo significado à voz que ecoa do trauma causado pela minha inação que, associada a culpa advinda das reações desproporcionais, me faz cair  do topo dos nove círculos do Inferno de Dante.

 

 

 

Eu sempre posso sofrer no ano passado

Mudar de medos, mudar de obsessões, mudar o jeito de cometer os mesmos erros. Repetir padrões, e não prosseguir. Projetar, no presente e no vislumbre do futuro, todas as mágoas passadas, todas as dores guardadas, todas as piores e mais traumatizantes lembranças. Alimentar os medos, alimentar obsessões, alimentar os inúmeros jeitos de cometer os mesmos erros. Creditar às pessoas recém-conhecidas todos os erros cometidos pelos conhecidos de longa data. E me sentir, ao fim do dia, como uma caricatura da pessoa que eu poderia ser.

No jogo das projeções, todos perdemos. Quando pensamos que podemos substituir esta por aquela pessoa, acabamos por projetar na última o que sentíamos pela primeira, o que impede que conheçamos a pessoa que está à nossa frente e  pretende continuar na nossa vida. Não damos chance para quem tenta se aproximar, porque já assumimos que ela é a pessoa com a qual temos assuntos não resolvidos e, de antemão, colocamo-la no campo das pessoas que devemos odiar ou amar irrestritamente.

Assim, ficamos presos em algo que, em completude,  não existe mais, mas que não deixou definitivamente de existir. Ficamos presos aos zumbis. Não a um zumbi em si, porque assuntos mal resolvidos, antes de estarem só, estão mal acompanhados. Não tenho medo de um zumbi específico, porque, na minha imaginação, zumbis não têm singular, aparecem todos juntos e, enquanto uns me encaram de frente, outros me atacam pelas costas, pelos lados, saem das paredes, do chão, do teto e de dentro de mim. Sinto sair uma mão de dentro do meu estômago só para, em seguida, vê-la agarrar o meu coração, e caio da escada.

Não importa a quantidade de degraus, não importa o quão firmes meus pés pareçam estar, eu me lembro de todas as vezes em que caí da escada, e sinto todas as dores provenientes das quedas. Ao terminar de descer a escada, fico surpresa e frustrada por não ter caído, e já começo a imaginar o momento em que a queda virá, e ele parece próximo e distante, nunca inofensivo, porque zumbis, mesmo que não estejam tecnicamente vivos, podem ferir, e ferem, quem está vivo.

Para prolongar o sofrimento, os zumbis deixam o meu cérebro por último. Para eles, é importante que eu tenha consciência de todos os traumas que tenho de reviver, de todas as culpas que tenho de remoer. Catatônica, já não enfrento meus traumas, de sempre trazê-los comigo. E não vejo a pessoa que sou hoje, por estar sempre olhando para a pessoa que eu fui, e com a qual tenho assuntos irresolutos. Depois de um tempo vivendo  entre zumbis, eu nem sei mais o quanto de mim ainda está vivo.

O medo é uma pressa que vem de todos os lados

Terceiro texto sobre o medo de altura. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui.

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MorteSandmanApego-me aos preceitos epicuristas e acredito que tudo é feito de átomos e tudo a eles retornará. Movimento. Repouso. Organização. Desorganização. Reorganização. Apego-me às verdades herdadas para não ter de ceder à imperturbabilidade cética. Apego-me às lembranças para fugir dos aconchegos das pequenas mortes. Recuso-me a encontrar com elas e, desse modo, não consigo fazer diferenciação entre  vida e  morte. Assim, pulsão de vida e pulsão de morte se misturam, me anulam.

No meu silêncio, a minha presença. Na minha fala, a minha ausência. Todas as ausências. De corpo, de voz, de vida que se refrata no ar. Ausência de sentidos, confluência de temores que me conduzem à queda que, por sua vez, precede o medo de altura. Sempre a queda. Sempre a figura de Lúcifer. Sempre joguete de Deus. Sempre a crença em uma intervenção divina. Sempre um movimento de idealização singular. Movimento que retarda o meu encontro com o inconsciente.

Ao fugir das dores, cristalizo o sofrimento, coloco-o em um pingente que carrego no meu pescoço, enquanto acredito que posso controlar tudo. Aperto-o contra o meu peito, e ele começa a pesar. É questão de tempo até o pingente, como vitral que se quebra e deixa cacos por todos os lados, se despedaçar.  Corro para dentro de mim, tento fechar as portas internas, mas estou em um labirinto e não consigo encontrar as portas. Passei tanto tempo evitando me conhecer que sou um corpo estranho e, por isso, hostilizado.

O chão do labirinto é devorado por um precipício formado por todas as mortes que adiei. Vou cair. Não tenho medo de altura. Tenho medo de morrer. Tenho medo de morrer dia após dia. Tenho medo de morrer uma vez por segundo e continuar viva. Tenho medo de morrer de fome. Tenho medo de morrer de amor. Tenho medo de morrer de medo. Tenho medo de morrer de frio. Tenho medo do depois e, por isso, me perco no agora. Tenho medo de morrer porque tenho medo de aceitar que  não posso controlar as coisas. Tenho medo de admitir que não posso controlar nada. O medo é tudo o que eu tenho, por isso, não deixo que ele morra. Tenho medo que o término interrompa o sempre e, assim, conforme o cair da areia da ampulheta, a vida se renove.

 

 

No topo do nada, o equilíbrio

Segundo texto sobre o medo de altura. O texto anterior pode ser encontrado aqui.

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queimarmemóriasSob o domínio do id, é impossível conviver. Certifico-me da necessidade de controlar tudo o que é externo por não poder controlar o meu inconsciente, onde o tempo não é fracionado, onde as coisas se repetem o tempo inteiro, onde o prazer tem a palavra final, onde o desejo manda e desmanda enquanto espalha encanto com suas cambalhotas desajeitadas.

O id me impulsiona à queda livre, o ego me ampara com paraquedas. Mas quando o paraquedas não abre, eu não controlo como as pessoas me veem, e então elas me veem como sou e, antes delas, eu me vejo. Eu vejo a minha sombra refletida no chão, eu vejo se aproximar o meu encontro com a terra, e isso me apavora.

Quero aparar todas as arestas externas para encobrir as arestas internas. Quero emparelhar os discursos, para que o meu discurso dissonante não possa ecoar, aceite se aquietar no meu inconsciente. Quero mascarar os contrassensos, para forjar uma falsa paz. Mas sei que discursos que visam à supressão das contradições e incoerências humanas são responsáveis por incontáveis frustrações.

Eliminar minhas características humanas não me torna deus, me desumaniza, me fragiliza. Se estou fragilizada, não preciso voar. Se não voo, não temo a altura, não temo o salto. Se frágil sou, o melhor é ficar empoleirada, segura, alimentada, parada, em paz. Mas paz tem mais a ver com liberdade do que com repouso. Paz tem mais a ver com equilibrar as emoções o suficiente para se sentir bem em uma multidão do que em ter de se esconder da multidão. Se preciso me esconder, temo que me vejam, que vejam algo em mim que me provoca desconforto, se o temor me domina, não estou em paz.

A pomba é o símbolo da paz e, mais do que voar entre as nuvens, onde ninguém pode vê-la, ela voa baixo, passa pelas nossas cabeças e descansa nos nossos pés. Quando a gente pensa que a pomba sumiu, ela está ali, nas praças, se movimentando e cagando em nossas cabeças para nos lembrar de que estamos vivos. Ela nos impulsiona a sair de uma situação de desconforto, a buscarmos uma solução, a procurarmos uma água na qual possamos nos lavar da merda em nós despejada.

Não há paz na inação, não há paz no que não conseguimos resolver. Não há paz em esperar que a merda da pomba caia como dilúvio sobre nossas cabeças. Não há paz quando as lembranças tocam as rachaduras da alma e abrem passagem para as dores. Não há paz quando a alma se desfigura em frestas a partir das quais se articulam invisíveis fios tecidos pelas dores revividas. Não há paz em não aceitar que, uma hora, o paraquedas se rasgará.

 

Mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo

gaivotareflex1O trampolim balança. Vislumbro o céu, vislumbro a minha imagem na piscina. Uma espécie de narciso dos tempos modernos, um borrão. Não pulo, mas vou cair. É  questão de tempo até eu pular para parar de balançar. É questão de tempo até eu pular para alçar o céu e acabar no fundo da piscina. Tenho medo de altura, não sei voar. Tenho medo de piscina, não sei nadar. Tenho medo de qualquer coisa que não possa controlar, não sei errar. Se pular, não vou voar. Se não pular, vou cair e me afogar. Não posso ficar no trampolim para sempre. Ele balança, e eu me seguro como posso, assim desisto da vida que poderia ter, mas pareço controlar, pareço escolher, pareço viver. O trampolim balança, mas o meu sorriso não cai do rosto.

Sou a sobra das minhas renúncias. Não sou. Serei. Quando eu for uma pessoa melhor, serei feliz. Balança o trampolim. Quando a minha imagem no espelho estiver melhor, eu serei feliz. Balança o trampolim. Quando eu parar de me irritar facilmente com as pessoas, serei feliz. Balança o trampolim. Quando conseguir discutir sem ofender, serei feliz. Balança o trampolim. Quando conseguir um emprego melhor, serei feliz. Balança o trampolim. Eu ainda serei muito feliz. Enquanto a felicidade não chega, eu me anulo, eu me odeio, eu me irrito comigo, eu me irrito com os outros. Enquanto a felicidade não chega, eu me empenho em cultivar hábitos e relacionamentos destrutivos, para que as pessoas validem a imagem que tenho de mim.

As pessoas são o todo das minhas renúncias. Quando as pessoas forem melhores, serei feliz. Balança o trampolim. Quando eu for o espelho que refletir melhor a imagem das pessoas, serei feliz. Balança o trampolim. Quando as pessoas pararem de se irritar facilmente comigo, serei feliz. Balança o trampolim. Quando as pessoas conseguirem discutir comigo sem me ofender, serei feliz. Balança o trampolim. Quando as pessoas conseguirem um emprego melhor, serei feliz. Balança o trampolim. Eu ainda serei muito feliz. Enquanto a felicidade não chega, eu anulo e odeio as pessoas, me irrito com elas e comigo. Enquanto a felicidade não chega, eu me empenho em cultivar hábitos e relacionamentos destrutivos, para que as pessoas possam ser a projeção da imagem que tenho de mim.

Permaneço em um contexto ruim, mas não irreversível, por imaturidade, por resistência, por medo de não saber lidar com o que virá depois, por receio de confrontar e elaborar o desamparo que, sob o traje da necessidade de controle, se esconde e me esconde de todos. E, ao mesmo passo que não me perdoo por agir assim, transfiro aos outros a responsabilidade pela minha incapacidade de reavaliar minha postura diante das situações. Eu não sei como é o agora. Eu não sei quem eu sou agora. De assalto, me falto. Salto os buracos na rua, e sempre piso nas pedras, no que é firme. Nem no ar nem no mar. Na terra. Na superfície, que é para ser quem não sou.

“Do chão, não passo” é a pior conclusão a que se pode chegar. Não passar do chão é não se conhecer. A batata fica abaixo do chão. A entrada para o País das Maravilhas fica abaixo do chão. Cair, cair, cair é o único jeito de chegar lá. O “lá” de nós mesmos fica onde preferimos não pisar. Abaixo do chão, abaixo de nós, abaixo de tudo, está a subjetivação. Sigo na direção contrária. Espero ser, por medo de ser e me permito desfrutar de alguns afetos imediatos, que me trazem dores duradouras. Pulo do trampolim. Mergulho em mim.

 

 

Às vezes, quando você cai, você voa

Terceiro texto sobre o “medo de falhar”. Os textos anteriores sobre o tema podem ser lidos aqui e aqui.

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GalactusO Eu Supremo me diz que eu não sou a pessoa que deveria ser. Diz que eu não sou boa o suficiente para fazer escolhas acertadas, e que tampouco tenho coragem para assumir as escolhas ruins que faço. O Eu Supremo não atravessa o meu caminho, atravessa e devora todas as minhas possibilidades de criar um caminho, porque diz que eu vou falhar. E, com a intenção de não falhar, entro em um ciclo de destruição, de autodestruição. Não crio laços e, se por um descuido do Eu Supremo, arrisco criá-los, o faço de maneira rápida e inconsistente, de modo que eu possa quebrá-los assim que o Eu Supremo voltar a olhar para mim.

O Eu Supremo é a figura de autoridade que bloqueia meus avanços. Eu não me desvencilhei do papel de Deus, de  Pai Totêmico, como detentor da última palavra sobre a minha vida, eu apenas o transferi para um Eu imaginário, um Eu que não se permite questionar. Alimentei-me dessa figura mas, durante algum tempo, convivi com a ilusão de ter me libertado dela. O Eu Supremo faz com que eu permaneça aprisionada entre a fantasia do Eu ideal e ideal de Eu e, desse lugar de não existência, a noção de que eu não sou a pessoa que deveria ser cresce, vira uma montanha, e faz com que eu seja diminuída, reduzida, implodida, eliminada e reorganizada na inexistente figura de um Eu Supremo, um Eu que não admite falhas.

Enquanto crescia, encarcerei-me no lugar de cumprir as ordens de um grande outro. O lugar reservado para esse outro foi ocupado por diferentes sujeitos, ao longo do tempo. Entre eles, destacam-se: Deus, meus pais, meus professores e meus chefes. Por muito tempo, esperei que eles viessem me punir ou me recompensar. Quando finalmente senti que tinha autonomia para gerenciar a minha vida,  fazer as minhas escolhas e lidar com as consequências delas, caí no buraco do medo de falhar e, para não sair de lá, inconscientemente, desloquei a ideia do grande Outro para um grande Eu.

O Eu Supremo se mostrou mais rígido do que eram as figuras de autoridade cujas presenças simbólicas eu pensava ter reelaborado. O Eu Supremo é o resultado da junção de significantes que têm me significado há mais tempo do que consigo admitir. Resultado da união de novas figuras de autoridade às quais tenho me submetido: Medo de Palhaços, Medo de perder o ônibus, Medo de fazer escolhas, Medo de não me movimentar, Medo de não ser quem eu deveria ser, Medo de ficar presa ao passado, Medo da Regan/do diabo, Medo de borboletas, Medo do outro e Medo de falhar.

Escalo a montanha na qual vivem os meus medos. Chego ao topo, e percebo que ela é frágil, montanha de ar. Olho para o chão de ar, e não temo a queda. A montanha começa a desmoronar. Enquanto ela e eu caímos, vejo rolar o medo de falhar. Das bordas do medo de falhar, como a renda de uma saia, desponta o medo de ser uma impostora, que suspira pela última vez. Olho para o Eu Supremo, olho para mim.

Esquecer para ser. Na pronúncia da palavra esquecer, encontra-se a palavra ser. Esquecer quem eu deveria ser para, decidida e prontamente, ser. Despir-me do Eu Supremo, Ideal de Eu, para me conhecer como eu realmente sou, para ser nada, me desfazer dos fardos, das expectativas, das projeções. Na pronúncia da palavra conhecer, encontra-se a palavra ser. É nela que eu quero morar, é a partir dela que eu quero me construir. É no campo de significação em que ela repousa que quero acertar e falhar.