Entre a palavra e o ato, desce a sombra

A água que circula hoje é a mesma que molhou os dinossauros. A raiva que me consome, hoje, é a mesma que consumiu civilizações. Tudo volta. Tudo é cíclico. Mas tudo atinge as pessoas de diferentes maneiras. Tudo em mim transborda porque eu vivo no limite. A felicidade é urgente, mas a infelicidade é recorrente. A gente tem pressa para ser feliz porque sabe que a infelicidade nos segue de perto. A gente corre, mas, às vezes, ela nos alcança.

A gente já nasce com a corda no pescoço, mas quando é criança não percebe que a corda tá lá. Então, a gente começa a crescer, e a corda começa a apertar, e, pela primeira vez, a gente se dá conta de que não está livre. Debilmente, a gente coloca a mão na corda, e pensa que ela vai se romper sem oferecer resistência. A gente se desespera. Procura por uma tesoura, para poder cortar a corda, mas percebe que a tesoura está muito ocupada aparando as arrestas da nossa vida, está ocupada recortando as memórias e colando-as onde possamos vê-las e, quando necessário, esquecê-las. A tesoura está fazendo o que a gente não dá conta de fazer.

Nas mãos de quem está a tesoura, não se sabe. É mais fácil acreditar que as Moiras estão fabricando, tecendo e cortando o fio da nossa vida. Não é mais fácil. O processo de  tornar-se um indivíduo não é fácil. Quando a gente coloca o processo na mão dos deuses, se sente um lixo por não controlar nada. Quando a gente assume a nossa parte no processo, fica com medo de ter feito tudo errado. Quando  encontra um meio-termo, que nada tem a ver com acreditar ou não em deuses, a gente não sabe lidar, pois já se acostumou a viver nos extremos e não acredita que haja equilíbrio, não sabe viver no equilíbrio.

Por isso, a gente passa a maior parte do tempo tentando se equilibrar e, como não consegue, sente raiva, muita raiva, o tempo inteiro. Raiva pela extinção dos dinossauros. Raiva pela devastação que as atividades minerárias causam. Raiva por cair. Raiva por ficar uns minutos no chão, tentando se levantar. Raiva por se levantar. Raiva por ver o time perder. Raiva por não conseguir escrever. Raiva por escrever sobre raiva. Raiva por não ter tempo para nada. Raiva por não ter dinheiro. Raiva por não ter emprego. Raiva por ter emprego. Raiva por acertar. Raiva por errar. Raiva de tudo e, especialmente, da gente.

Tudo é cíclico. Tudo volta. Tudo volta para o começo. O cordão umbilical está deslizando entre as minhas mãos. Parece um colar. Coloco-o no pescoço, e não quero mais tirá-lo de lá. Não tiro até sair para o que chamam de mundo. Não choro; não sei se dá para chorar, ainda penso que o cordão está no meu pescoço; ainda penso que ele está me impedindo de emitir sons, ainda acredito que ele tenha a função de impedir que eu me movimente. E fico parada. Imóvel. Estagnada.

 

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2 comentários sobre “Entre a palavra e o ato, desce a sombra

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